2 Comentários

Dire Straits – Brothers in Arms: “Se deixássemos os outros em paz, o mundo seria um lugar melhor”

Era esta a filosofia de Mark Knopfler. Muito simples. O apogeu dos Dire Straits surgiu em 1985 com um sucesso à escala planetária. Seria quase impossível superar tal êxito. Acabou por ser o canto do cisne.

Dire Straits Brothers in Arms 2

A imagem vale mais que mil palavras: O homem (in)visível que “era” os Dire Straits.

Brothers in Arms foi desde logo considerado o álbum típico de um compositor que ganhara traquejo a escrever bandas sonoras em anos recentes. O estilo instrumental foi condicionado ao máximo para acomodar as limitações vocais de Mark Knopfler. As críticas, uma vez na vida, perceberam que todo este verniz não bastava para esconder canções impressionistas, suaves e menos profundas do que nos álbuns anteriores.

A maçadora Rolling Stone chamou ao disco “maçador”. Na realidade, o álbum era semi-conceptual. O lado B era composto por canções sobre os homens e a guerra. Não podemos ignorar o contexto em que Brothers in Arms foi concebido – os anos 80, em que a imagem era tudo ou nada. (Nesse aspeto, as coisas só pioraram.)

John Stainze ouviu «Money for Nothing e disse de imediato, “isto é estrondoso”, ao que Ed Bicknell respondeu, “não é o primeiro single”. Ironicamente, foi uma canção escrita do ponto de vista de um “idiota” como Knopfler lhe chamou – indivíduo que criticava as estrelas rock numa loja de eletrodomésticos. O tema – e isso passou ao lado de muita gente – é o modo como os músicos de rock são encarados pelas pessoas que as veem “de fora”. Knopfler era já multimilionário, mas o seu ponto de vista não se alterara. O tema era outra observação distanciada como «Sultans of Swing», que escrevera quando era professor.

Dire Straits Money for Nothing single

Como deixaria claro 10 anos mais tarde, em «Rüdiger», Knopfler não aprecia os caça-autógrafos, sente até alguma pena destes personagens de vidas vazias. Numa das entrevistas que deu para promover Golden Heart, explicou: “Adoro o fã da música. Não o fã que quer o nosso autógrafo só porque somos celebridades.”

Na época em que Brothers in Arms foi editado, o guitarrista explicou o seu processo criativo. “Se somos compositores, de vez em quando, vemo-nos em situações que apresentam diversas possibilidades. Pelo menos, é assim comigo. E pode ser uma coisa banal. Para mim, costuma ser uma espécie de performance. «Les Boys» foi um número terrível de travestis que vimos num hotel na Alemanha. «Sultans of Swing» foi sobre uma banda a tocar num pub. «Money for Nothing» foi outro tipo de atuação, o tipo de atuação do Sr. Parolo, com mentalidade ultraconservadora, que trabalhava no fundo de uma grande loja de eletrodomésticos em Nova Iorque.”

Mark Knopfler Brothers in Arms 1

“As TV’s estavam todas sintonizadas na MTV, portanto mostravam todas a mesma imagem”, continua Knopfler. “E isso foi o palco da canção. O personagem principal estava em foco e tinha o seu pequeno público de duas ou três pessoas. Era muito semelhante à personagem de banda desenhada que temos na canção. Apoiado no seu carrinho, disse a maioria das coisas que estão na canção, só que a linguagem foi muito mais ‘refinada’. Portanto, fui pedir papel e caneta na loja e sentei-me na zona das cozinhas, à frente, na montra.”

“Por isso, comecei a escrever a canção na montra da loja. Os Police andavam sempre na MTV, faziam uma coisa do estilo, ‘quero a minha MTV’. A MTV passava uma autopropaganda e arranjara músicos para dizerem isso, ‘quero a minha MTV’. Uma das canções em voga, nessa altura, era, segundo creio, «Don’t Stand So Close to Me», por isso, aproveitei-a e tirei essas quatro notas. Sting passava férias em Montserrat quando gravámos o tema, e achei que seria boa ideia ele vir cantar isso. Acho que foi uma grande sorte ele estar lá. Estava apenas a divertir-se enquanto nós trabalhávamos.”

Dire Straits Montserrat

Em Montserrat, gravando o álbum: Guy Fletcher, Mark, Alan Clark, Terry Williams e John Illsley.

O MAIOR CRÍTICO É O CRIADOR

As canções de Brothers in Arms foram compostas no inverno de 1984, antes do grupo ir gravá-las a Montserrat. Knopfler disse, num programa de rádio, o BBC Radio 1, em 1989, que queria escrever canções mais diretas e evitava sempre escrever canções acerca de hotéis, andar em digressão ou tocar ao vivo.

“«So Far Away» é algo que gostaria de aplicar a toda a gente. Pondo de lado o resto, vivemos agora num mundo de viajantes aéreos, as famílias estão por toda a parte e isto tem relevância. Não é apenas sobre um músico no hotel 185, entende?… Para mim, era sobre conduzir uma relação por telefone, o que é uma anedota. Não pode mesmo ser feito durante um longo período, porque ambas as pessoas ficam exaustas. Foi essa a ideia.”

Mark Knopfler Brothers in Arms 2

Mark Knopfler declarou-se insatisfeito com o álbum, mal ele saiu, apontando defeitos a tudo.

“Provavelmente, mudaria muitas coisas. E não gosto de me ouvir a cantar, de qualquer modo… agora teria canções melhores e deitava ao lixo a maioria destas. «One World» é uma canção horrível. Nunca teria posto uma coisa dessas num disco. Acho que foi a última que gravámos, quando eu procurava algo para fazer. Seria certamente diferente. A nível temático, não tem… tem um ou dois temas, só que não estão bem interligados. A secção final de «Why Worry» soa-me sem sentido, aquelas brincadeiras com sons bonitos…”

Mark Knopfler Brothers in Arms 3“Os instrumentais no fim dos temas são muito longos, como em ‘Money for Nothing», «Ride Across the River» e «So Far Way».” Knopfler promovia o disco ou arrasava-o? «Walk of Life», um tributo aos músicos de rua, ia ficando fora do álbum. Para o compositor, a atividade destes músicos não era muito diferente daquilo que os Straits faziam – tocar para milhões de pessoas ou para transeuntes ia dar no mesmo.

“Odeio o vocal de «Walk of Life». Algumas coisas podem entrar à socapa sem que nos apercebamos. Não damos por elas, senão não as teríamos deixado ficar. Há demasiados ‘woos’ no começo de «Walk of Life». Ouvi isso na rádio um dia destes e pensei: ‘Meu Deus! Para que raio estava eu a fazer aquilo? É como nos sentimos na altura. Estamos ali, numa sala…”

“«Your Latest Trick» é uma canção que ainda não entendo especialmente. «Man’s Too Strong» é sobre um tema feio e velho, na verdade. Tem uma coisa trabalhada que me desagrada mesmo. «One World» é terrível.” «Brothers in Arms» era uma canção que Mark queria escrever há bastante tempo, segundo disse, uma “canção antiguerra”. “Ficou bastante bom, só que eu não cantei a melodia no primeiro verso. E há lá um som de guitarra que não era o que eu queria de todo. Mas acho que foi a canção mais bem gravada. Muito melhor que «Money for Nothing». Sim, acho que foi a que saiu melhor, de acordo com o que se pretendia… mas ainda não me soa bem.”

Brothers in Arms Mark Knopfler 4MUNDOS OPOSTOS NUM SÓ MUNDO

Nas entrevistas acerca do álbum, Knopfler mostrou-se desconfortável, mas foi dando algumas pistas sobre a inspiração das canções:

“«Your Latest Trick» veio da ideia de Nova Iorque, na verdade. Não sei bem o que aquilo tudo quer dizer, mas é algo que me acontece com frequência. A ideia surgiu-me quando regressava do estúdio e ia sempre a [Greenwich] Village às quatro da manhã, fui absorvendo pequenas ideias; taxistas que só aceitam corridas em troco de dinheiro vivo e qualquer coisa que passou na rádio. E sempre gostei da ideia dos camiões do lixo – temos de conhecer Nova Iorque – mas são coisas monstruosas, que fazem um ruído incrível. São bestas pré-históricas, e foi daí que tirei uma das ideias.”

“Portanto, começamos e acabamos. Como em muitas coisas. Mal começamos, uma coisa leva a outra. Muitas destas canções surgiram de fragmentos, e criamos coisas destes fragmentos… e não sei se são tão boas como ideias já estruturadas. Para mim, não têm um sentido específico. Posso encará-las de várias maneiras. Gosto de fazer isso com as canções, para que se possam adaptar às diversas situações das pessoas, para que elas possam viver com elas e encontrar nelas significado.”

Mark Knopfler Brothers in Arms 5

Mark Knopfler procurava ser concreto mas divagava, por muito que lhe perguntassem a inspiração das canções. Foi direto numa situação – «Brothers in Arms»:

«Lembro-me de o meu pai dizer, quando se travava a guerra das Falkland, que os russos eram irmãos em armas dos argentinos. Que a Rússia comunista era irmã de armas daquela ditadura militar da Argentina. E o termo ‘irmãos de armas’ não me saiu da cabeça, embora a canção não seja sobre isso. Por qualquer motivo, imaginei um soldado a morrer no campo de batalha, e talvez tenha uns camaradas em redor dele… e o que lhe passaria pela cabeça. Temos de imaginar a cena, há aqueles tipos ali, pessoas à volta, e é de noite… é uma espécie de encenação, nesse sentido.”

Knopfler prossegue:

“E temos novamente a ideia dos mundos opostos dentro de um só. Só temos um mundo, mas vivemos em mundos diferentes. É isso. Acho que passou pela cabeça de muitas pessoas, quando estão à beira do penhasco… isto é mesmo estúpido, é mesmo… somos uns tolos ao fazermos parte disto. Ao fazer parte da guerra de qualquer pessoa.”

“CONSISTENTEMENTE ACESSÍVEL”

Montserrat Mark Knopfler dog

Knopfler em Montserrat com um amigo.

As pessoas que conheciam Mark Knopfler há muitos anos ficaram espantadas com Brothers in Arms. O amigo Dave Pask foi uma delas: “Eu sabia que o homem tinha talento, sabia que compunha umas boas canções, e sabia também que havia algum carisma ali. Mas este último disco é incompreensível. «Money for Nothing», por exemplo. Lembro-me quando Knopfler não conseguia fazer o arranjo de uma canção, mesmo que tentasse o resto da vida, andava em círculos e nós pensávamos, ‘quando é que isto acaba?’ E quando é que aquilo acaba? É um ótimo riff e uma ótima canção, mas, Deus me livre, repete-se umas quatro vezes.”

Pask achou que «Walk of Life» era “engraçado e inofensivo”. “E foi esse o CD mais vendido de sempre? Teremos muita discussão pela frente antes que alguém nos consiga explicar isso.” Pask admitiu contudo que “Knopfler é um grande guitarrista de rock; é uma central de energia! O homem toca um acorde simples e soa tão poderoso!”

Mark Knopfler Brothers in Arms 6

O antigo colega apontou outro aspeto raramente mencionado quando se fala da música dos Dire Straits: “Para sermos justos, há que dizer que ele tem sempre uma ideia para cada canção. Nesse aspeto, classificava-o como escritor. Mas tudo se relaciona com ser incrivelmente dotado enquanto músico.”

Em suma, Dave Pask achava que o trabalho de Knopfler em disco não se comparava ao que era capaz de fazer. Mas também não lhe agradava a falta de tomada de posições. “A minha esposa acertou quando disse, ‘ele é tão consistentemente acessível. Ele não diz nada, não vai incomodar ninguém, mas aquilo quase soa a poesia aos ouvidos de quem não é poeta. E está bem feito’.”

Pask conheceu Knopfler e descreve-o como uma “pessoa confusa”. “Sobre qualquer assunto. Mas, que diabo, se sabe tocar guitarra! E digo-vos, o piano, o saxofone, qualquer coisa. Recordo-me de um ensaio em que ele disse, ‘nah, dá cá o baixo um segundo’. E tocou-o na perfeição. E ninguém sabia sequer que ele tocava baixo.” Durante a digressão de Brothers in Arms, Knopfler aprendeu a tocar saxofone, e o saxofonista ficou espantado perante a destreza com que Mark dominou o instrumento.

Mark Knopfler Brothers in Arms 7

Ian Gomm, músico que fizera uma digressão com os Dire Straits pelos EUA, em 1979 achou de imediato (e profeticamente) que seria difícil dar seguimento a Brothers in Arms:

“Foi outro Hotel California, pensei. Depois de feito, não o conseguiriam superar. É quase o beijo da morte, fazer um álbum assim. Isto é, se uma pessoa se preocupa com o grupo, mas nunca achei que houvesse ali um grupo, de qualquer forma. Os Eagles acabaram, o que foi pena. Os Dire Straits não podiam acabar porque não havia nada para acabar, era só ele e Illsley.”

Knopfler sempre evitou controvérsias, mas não se livrou de uma. Em setembro de 1986, a Warner Brothers editou uma versão “desinfetada” de «Money for Nothing», numa altura em que o single estava no Top 5. As três referências a “faggots” (termo depreciativo para homossexuais) no segundo verso podiam ser um problema para algumas rádios. Mark soube disto, entendeu e ajudou a discográfica a conseguir uma versão editada da canção. O compositor recusou-se a comentar. A “polémica” continuaria em alguns países até recentemente.

Mark Knopfler Neil Dorfsman

O perfecionista com o engenheiro de som Neil Dorfsman. Gravação de Brothers in Arms.

Se o vídeo de «Money for Nothing» se tornou um clássico, o de «Brothers in Arms» gerou outra situação menos pacífica. O realizador evitou vestir os músicos de soldados ou mostrar cenas dos horrores da guerra, o que tornaria o videoclip impróprio para a maioria das estações televisivas. A solução foi hábil: Knopfler, de fita na cabeça, parece um líder de guerrilheiros, mas a sua figura é um símbolo da paz. A explosão que torna a sua metralhadora numa guitarra é a mais significativa das imagens.

No LA Times, Terry Atkinson disse compreender o trocadilho entre arms (braços ou armas) classificando porém a canção de “sombria”. “A imagem da banda a empunhar armas automáticas é especialmente perturbadora.”

O PREÇO QUE SE PAGA

Já muito foi escrito sobre o sucesso colossal do álbum, que ultrapassou as vendas de todos os discos dos Dire Straits e se transformou num fenómeno. Muito disto esteve relacionado com a “explosão” do CD e também com o trabalho de promoção, que incluiu uma maratona esgotante de espetáculos: 235 concertos em 117 cidades de 23 países, ao longo de 13 meses. A tournée começou em Split na Jugoslávia e terminou em Sydney.

No fim da jornada, o guitarrista Jack Sonni desabafou: “Nunca me senti tão exausto, física e mentalmente. Adorámos. Foi uma experiência incrível. Mas é como ficarmos presos num elevador. Todos sentiram um pouco a pressão, mas julgo que Mark sofre. É o preço que se paga por liderar uma das maiores bandas do mundo.”

Era natural que a imprensa questionasse Knopfler acerca do equilíbrio das vidas pessoais dos músicos que integraram a tournée. Em Budapeste, Steve Lake era enviado especial do jornal britânico The Guardian. A 15 de julho de 1985, publicou um artigo que incluía a resposta de Mark:

“A Lourdes [esposa de Knopfler na altura] está aqui, na verdade. Está lá em cima a dormir. Olhava para ela no outro dia, no autocarro da digressão, depois de termos percorrido umas centenas de quilómetros, e achei mesmo que a arrastava através desta coisa toda. Dia após dia, não é muito agradável. Mas quando tocamos uns dias num sítio com glamour como… Paris. Ou aqui. Então é ótimo.”

Mark Knopfler Brothers in Arms 9

Em Budapeste, a conferência de imprensa foi “dolorosa”, segundo Lake. Os silêncios de Knopfler confundiram os jornalistas húngaros. Mas o guitarrista saiu-se com esta: “Todos os músicos que conheci consideram a imprensa musical inglesa uma anedota.” Mark exprimiu o seu desagrado com uma crítica americana, que o comparou ao genial Django Reinhardt:

“Isso não passa de… lixo. É pena que tanta porcaria seja escrita sobre música. Fico um pouco aborrecido quando me tentam colar esse rótulo de ‘virtuoso’. Por uma razão, essencialmente – isso não concede a pessoas como Django o respeito que merecem. Toquei com Chet Atkins recentemente, e foi uma grande experiência para mim, mas foi também o tipo de experiência que nos elucida sobre as nossas limitações.”

Mark Knopfler Chet Atkins

Mark e Chet.

A admiração por Atkins, Mark sempre a tivera:

“Com todo o gosto, passaria os próximos 5 ou 6 anos com ele, só a aprender. Chet dir-vos-á que eu não sei que diabo estou a fazer mas acaba por sair mais ou menos bem. E é verdade… apenas tenho muito bom ouvido. Sou um aluno na execução musical que ainda não sabe muito, que não sabe ler música, cujo conhecimento é uma manta de retalhos cheia de pontas soltas.”

Mark Knopfler cover Brothers in Arms“JÁ VENDEMOS MAIS QUE SUFICIENTE”

Visualmente, o look de Knopfler era mais desportivo. Começara a usar uma fita na cabeça, notou a imprensa (já a usava antes) à semelhança de Bruce Springsteen, que, com Born in the USA, obteve outro blockbuster em meados dos anos 80. As dimensões do sucesso de Brothers in Arms foram incríveis. Ao passo que, na digressão de Love Over Gold, o grupo tocara quatro noites na Wembley Arena, agora agendara 12 concertos no recinto. Era algo sem precedentes, atrairia 96 mil pessoas. Seriam os Straits capazes de tal façanha?…

O grupo assinou também um contrato de patrocínio com os compact disc da Philips, “um gesto de solidariedade para com as novas tecnologias”, disse Knopfler. Circulou na imprensa que tinham recusado uma oferta de montante cinco vezes superior por parte de uma marca de refrigerantes.

O merchandising da tournée foi outro fator que trouxe muito dinheiro à “empresa Dire Straits”. Numa só noite, na Austrália, foram vendidas 3 mil t-shirts, 5 mil programas, mil crachás, e vários tipos de posters e chapéus. Só em Melbourne, o montante ultrapassou os 650 mil dólares.

Brothers in Arms tour Dire Straits

A digressão. Que bando…

O líder dos Dire Straits era bombardeado com tanta pergunta e entrevista que até admira como fazia sentido nas declarações. Muitas pessoas esquecem o que estava em jogo na digressão Brothers in Arms: Há que compor as canções, gravá-las, organizar uma tournée mundial das mais ambiciosas e duradouras alguma vez encetadas por um grupo; ensaiar horas e horas, e correr o mundo de hotel em hotel com pouco tempo de folga ou para a vida pessoal. E, pelo meio, ser obrigado a falar com a imprensa e explicar o sucesso, do que trata esta canção ou aquela, e enfrentar perguntas porque faz parte da máquina promocional.

Knopfler, nestes aspetos, manteve a coerência de modo notável; era um homem mais maduro, um músico mais experiente e pensava de modo mais negocial:

“Nos primeiros tempos, fomos atirados para o meio de toda essa publicidade e não sabíamos lidar com ela. Lembro-me de dar 12 entrevistas num só dia, na Holanda, quando «Sultans» chegou a nº 1. E no final daquilo, não me senti muito bem comigo próprio. Andar por ali em estúdios televisivos, com gelo seco em redor dos tornozelos, sempre me pareceu… uma parvoíce. E agora podemos dizer, ‘não precisamos disso’. Já temos sucesso, a uma escala tonta, pelo que não é necessário passarmos por um triturador para vender mais alguns discos. Já vendemos mais que suficiente.”

A ARTE VERDADEIRA E A ARTE POLITIZADA

O guitarrista foi confrontado com os temas de Brothers in Arms e a sua postura face a eles:

“Eu quero protestar apenas sobre a estupidez do conflito, de como é desnecessário. Mas é difícil falar destas coisas. Provavelmente, terei uma ideia mais clara do que estou a fazer quando ler o que os jornalistas dizem que estou a fazer… a minha filosofia é simples – se todos deixarem os outros em paz, o mundo seria um lugar muito melhor. Mas uma das coisas, a meu ver, que realmente contribui para deter a violência é a arte. Não a arte politizada, que existe para promover um determinado ponto de vista. Apenas o processo de as pessoas ficarem, espero eu… sensibilizadas para o que se passa.”

Mark Knopfler Brothers in Arms 8Knopfler soava – e isso foi apontado por (poucos) jornalistas na altura – como alguém que crescera mais fascinado pelo processo artístico do que pela celebridade ou o estrelato. Já então contava uma história repetida ao longo dos anos, de como tinha sido maravilhoso ouvir o seu tio Kingsley tocar com perícia o boogie-woogie no piano. “Aqueles três acordes eram a coisa mais maravilhosa para mim. E mal os consegui tocar eu, pareciam possuir uma lógica absolutamente perfeita.”

A admissão de Knopfler no que toca à sua orientação criativa, por notável que seja, foi um pouco ensombrada pela abordagem dos músicos em palco. Muito criticada foi a bateria de Terry Williams a bombardear o intimismo de «Wild West End» ou o espetáculo de luzes espalhafatoso que retirava força a uma canção de protesto ao estilo de Dylan, «The Man’s Too Strong». Compararam estes excessos aos de Freddie Mercury (sem criticar Mercury; cada coisa no seu devido lugar).

À distância de quase 30 anos, constata-se que houve excesso, mas os anos 80 tiveram muito de efémero e de gosto duvidoso. Os Straits viajaram por essas águas, digamos, como muitos outros. Sempre tinham sido um grupo assente na modéstia, num som límpido, numa apresentação lúcida. Ao fazerem a transição para as grandes arenas, conseguiram a proeza de manter tais traços. Mas, em Brothers in Arms, a escala era planetária e perdeu-se bastante dessa atmosfera.

Ao vivo, as principais críticas (e fazem sentido se virmos vídeos da época) centravam-se no volume exacerbado, na histeria em palco, nas poses de estrela rock, e na sobrecarga dos dois sintetizadores, conferindo demasiada textura ao som. O jornalista Richard Williams no The Times apontou tudo isto, ressalvando que Knopfler continuava a ser “o guitarrista mais elegante no rock e provavelmente noutro lado qualquer”.

Mark Knopfler Dire Straits Live Aid

No Live Aid.

O interessante é que Williams se cruzou algum tempo depois com o manager dos Straits, Ed Bicknell, no Live Aid. Bicknell foi ter com Williams e disse-lhe: “Os seus comentários não passaram despercebidos. Achamos que têm qualquer coisa de importante.”

Ora, esta humildade é rara por parte de empresários do rock. Williams era um jornalista que sempre defendera o grupo e mostrava-se agora desanimado com o estilo bombástico, exacerbado e popularista dos Dire Straits. Tanto Bicknell como Knopfler foram adultos – não amuaram. Acharam que podiam aprender com as achegas de Williams. Um sinal de profissionalismo. O sucesso não “estragara” Knopfler. Hoje temos exemplos incontáveis de meninos birrentos na “música”. Que grande diferença de tempos.

Excetuando isto, a imprensa elogiou o controlo supremo da banda, as dinâmicas musicais na interpretação ao vivo, as longas passagens instrumentais e atmosféricas que envolviam «Ride Across the River», por exemplo. A autoconfiança em palco e a serena autoridade de Mark Knopfler deixaram milhares de pessoas em delírio. Nos EUA, os repórteres acharam incompreensível o facto de músicos com aparência tão banal terem conquistado tamanho sucesso. Compararam-nos a Springsteen, Prince e Michael Jackson, realçando que, ao contrário destes, os Straits não dependiam da teatralidade e do espetáculo vistoso; pelo contrário, a destreza instrumental estava na base do êxito.

A “falta de imagem” não incomodava Knopfler, que explicou essa lacuna a Paula Yates num programa da TV britânica, dando uma resposta hilariante e cheia de personalidade: “Temos uma quantidade considerável de estilo, acho eu, mas usar as calças que estão na moda esta semana não faz necessariamente parte disso.”

A guitarra que adorna a capa do álbum, uma National Style “O” foi comprada por Mark ao amigo Steve Phillips por 120 libras no início dos anos 70. Construída em 1937, tem hoje um valor incalculável. Tornou-se simbólica. Tal como o disco, ultrapassou as fronteiras do seu tempo.

Brothers in Arms foi assim um produto dos anos 80 que permaneceu intemporal. Quantos discos e grupos que estão na moda hoje serão considerados intemporais daqui a 30 anos? Muito poucos. Quase nenhum. Mas isto é futurologia. Só o tempo dirá quais as calças que estarão na moda então, e o que sobrou dos trapos do ano passado.

David Furtado

About these ads

2 comentários a “Dire Straits – Brothers in Arms: “Se deixássemos os outros em paz, o mundo seria um lugar melhor”

  1. Prezado David,
    Adorei a matéria sobre Brothers in arms. Mas fiquei espantada por ver que Mark critica quase todas as canções do álbum que me fez ser fã incondicional do Dire Straits. É sempre bom ler seus textos sobre DS. Um abraço, Renata.

  2. Ola David.Estava a tempos esperando mais uma materia!Adorei essa tambem pois nessa epoca que me consolidei um fan de verdade.Assim como nossa amiga Renata, fiquei surpreso com as criticas de Knopfler as proprias musicas.Realmente, ele e um perfeccionista.Me lembro de que quando foi lançado no Brasil, foi um sucesso enorme!Isso mesmo quando artista como Michael Jackson estavam em alta!”We are the world”,etc.Aqui foi como um ciclone e passou varrendo tudo!Eu mesmo tive tudo:O album em Vinil,fitas K7 (lembra?) e o CD.Isso porque o tempo das musicas eram diferentes no K7.Estou surpreso com os comentarios de Knopfler,pois “Why Worry” e linda com final instrumental.”ride Across the river” nao sai da minha cabeça,principalmente o final instrumental.”Money for Nothing” e sem comentarios!”Walk of life” e intocavel:se mexer no arranjo,atrapalha.Enfim, acho que eu no lugar de Knopfler,deixaria como esta, e uma obra de arte, nao se pode “retoca-la”, pra nao atrapalhar.Parabens pela materia!Abraço!
    Roberto Hubner

Comentar:

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Modificar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: