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Dire Straits, 35 anos depois: A formação do grupo e o primeiro álbum

Mark Knopfler storyPraticamente 35 anos depois da edição do álbum de estreia, gravado em fevereiro de 1978, conto aqui a história do nascimento dos Dire Straits, como os quatro se conheceram, tocaram, gravaram a maquete, o disco, como alcançaram o sucesso. A ascensão do quarteto de Deptford não foi fácil mas até foi rápida, acabando em Los Angeles, em 1979, com Bob Dylan a apertar a mão de Mark Knopfler e a dizer, “adoro realmente o vosso trabalho”. Quem diria que aqueles quatro, sobre quem um amigo de Pick Withers disse: “Caramba, vocês vivem mesmo em dire straits! (terríveis apertos)”, chegaria a este ponto?

Alguns amigos da época disseram que o termo “dire straits” era um modo de diminuir a banda, no caso de não resultar. Mark optou por isto. As pessoas sempre podiam dizer, “não admira, ‘they live in dire straits’…” Especula-se que foi um modo de conquistar um à-vontade que não lhe era natural. Mark era um guitarrista extraordinário e ambicionava o sucesso, mas não queria saber da imagem.

Era líder e até se tornaria ditador, segundo alguns, mas não era exibicionista. Entrava em palco vestido da mesma forma que saíra do emprego; a fita na cabeça surgiu como forma de reter o suor. Os punhos de ténis eram uma forma de poupar os tendões da mão direita, não era show-off, já que Mark quase nunca utilizava palheta e usava os cinco dedos, ou, quase sempre, o indicador, o médio e o polegar. Nunca ninguém tocara da mesma forma, nunca tocará. Chet Atkins brincou, “ele toca… assim”, imitando a estranha posição com os dedos. É um estilo que o mundo inteiro hoje identifica através de uma só nota. E tudo teve uma razão de ser.

Sessão fotográfica para o primeiro álbum, em 1978. Mark, David, Pick  e John.

Sessão fotográfica para o primeiro álbum, em 1978. Mark, David, Pick e John.

Para compreender o processo que reuniu David e Mark Knopfler, John Illsley e Pick Withers, recuemos até 1975, altura em que David Knopfler, por insistência da sua mãe, ingressou na Bristol Polytechnic. O jovem gostava da vida estudantil e tocava guitarra com um amigo que desistiu depois de chumbar nos exames. David procurou bandas rock, mas apenas encontrou alguns agrupamentos de folk.

Terminada a faculdade, David tornou-se assistente social em Bristol, e foi durante este período que o irmão, Mark, o visitava, proveniente de Loughton, na sua moto, e os dois tocavam juntos. Passado um ano, David despediu-se e foi viver com Mark no apartamento deste, em Buckhurst Hill, no Essex. Tocavam juntos quase todas as noites e foi então que algumas melodias, fragmentos e padrões começaram a surgir.

Entretanto, em Deptford, zona a sudeste de Londres, alguém que nenhum dos dois conhecia, morava em Farrar House, um quarteirão de mansões que já conhecera melhores dias, quando as docas eram prósperas. (As alusões de Mark aos rios Tamisa e Tyne, a barcos, marinheiros, e à vida nas ruas de Londres, nos dois primeiros álbuns, não são fortuitas.) Era um bloco “condenado” pela câmara, não servia para famílias, concediam residência a estudantes, artistas e músicos. A casa tinha quatro quartos, sala, cozinha e casa de banho. Não estava em grandes condições.

Contra a corrente. Os quatro de Deptford.

Contra a corrente. Os quatro de Deptford.

Alto e bem-educado, John Illsley era o mais novo de três irmãos, e já tocara blues/rock em vários grupos, na adolescência. Apesar de inteligente, não conseguiu as notas suficientes para ingressar na faculdade, inscrevendo-se assim num colégio perto de Kettering para aprofundar o Inglês e a Física. Contudo, Illsley estava mais interessado em jogar snooker e juntou-se a uma banda de blues que mudava constantemente de nome. Desde os tempos de escola, Illsley não se dava bem com a autoridade.

John tocava guitarra, a qual era sistematicamente confiscada pelo reitor. “Era difícil tocar, nesses tempos, éramos sempre desencorajados, associados aos Rolling Stones, o que equivalia a maus comportamentos. Se fosse tuba ou piano, tudo bem, mas guitarra…” Quando se juntou aos Knott, já havia três guitarristas e um baterista. John sempre foi pragmático: “OK, toco o baixo. Tirei as duas cordas de cima da guitarra, o Mi e o Ré, e arranjei um pick-up.” Seis meses depois, comprou o seu primeiro baixo.

Dire Straits 1978 2

John Illsley em primeiro plano.

O futuro baixista dos Straits trabalhou então num banco. “A minha mãe dizia que eu devia ser bancário como o meu pai. Fui a muitas entrevistas.” Seguidamente estagiou na área da gestão numa empresa de madeiras, por recomendação do pai. Quatro anos passaram, e John tinha uma namorada, uma casa, uma hipoteca e tudo indicava que podia ser diretor da empresa.

Aos 24 anos, pensou na vida: “Eu era independente, mas era ridículo. ‘Quero fazer isto o resto da vida?’ Claro que a resposta era ‘não’.” Illsley começou a estudar sociologia na Goldsmith’s College, sem deixar o trabalho na firma. Na faculdade, Illsley conheceu colegas mais novos, alguns deles músicos, e abriu uma loja de discos no norte de Londres, negócio que o fez perder dinheiro. Mudou-se então para Farrar House.

Mark Knopfler Dire Straits 2Num pub de Deptford, um amigo assistente social falou-lhe de David Knopfler, antigo colega, que procurava um lugar onde ficar. David simpatizou de imediato com John ao aperceber-se do interesse de Illsley por blues e rock, pelo que se mudou para o apartamento de Farrar House. Mais tarde, John conheceu o irmão de que David lhe falara, um encontro grandioso…

“Eu tinha passado a noite fora e cheguei às 10 da manhã. Fui à cozinha fazer um chá, entro na sala e vejo um tipo deitado no chão, com a cabeça encostada a uma cadeira. Dormia profundamente, todo vestido de ganga e com botas de cabedal. Tinha uma guitarra sobre a cintura. Pensei, ‘foda-se, este deve ser o Mark’.”

“Depois, ele acordou, claro, começámos a conversar, e demo-nos logo bem. A partir daí, passámos muito tempo juntos, íamos ao West End, a pubs e clubes. John foi vê-lo tocar na banda de covers na qual era então guitarrista, os Café Racers. Illsley simpatizou com os elementos e até tocou nalguns concertos, mas encorajou a ideia de um grupo em que Mark cantasse as suas próprias canções.

Em abril de 1977, surge mais um inquilino em Farrar House, Mark, que se mudou para o andar térreo, continuando a trabalhar em Loughton como professor. Foi este trio que tocou e praticou durante horas incontáveis, e John foi-se apercebendo de que Mark era um compositor de talento. Num curto espaço de meses, as canções-chave foram escritas, «Southbound Again» sobre as viagens de Mark até ao sul e «Wild West End», acerca dos seus passeios sem rumo por Londres.

John Illsley (à esquerda) num momento de descontração.

John Illsley (à esquerda) num momento de descontração.

Uma rapariga de Newcastle, antiga colega de escola de Mark, tinha agora uma galeria de arte moderna em Shaftesbury Avenue. John e Mark visitaram-na, um dia, e o guitarrista inspirou-se nisso para compor «In the Gallery». “Andávamos a passear por lá”, lembra John Illsley, “e nenhum de nós conseguia acreditar na merda que lá estava exposta. Era lixo. Não havia outra palavra”.

No caminho de volta, Mark sentou-se no banco trás do carro, a escrever furiosamente. “Eu não disse nada… viemos para Deptford em total silêncio. Saí do carro e perguntei-lhe se ele vinha e ele respondeu, ‘tenho só de acabar uma coisa’. Entrou no apartamento, hora e meia depois, e tinha escrito a canção”, relembra John. Com «Sultans of Swing» foi algo de parecido: “A música era diferente, mas a letra era a mesma. Ele apareceu e disse, entusiástico, ‘tenho uns novos acordes para o «Sultans»!’”

Os acontecimentos precipitaram-se, parecendo obra do acaso. Mark conhecia um baterista, Pick Withers, com quem tocara, certa vez, numa anterior banda, os Brewer’s Droop. O convite para integrar os Straits foi feito quando se reencontraram em casa de um amigo. “Ele estava ocupado em morrer à fome”, ironizou Mark, dizendo depois a John que Pick era um músico muito seguro e sensível e se integraria bem.

Knopfler face3A chegada de Pick Withers deu grande alento àqueles três músicos em part-time, embora John Illsley se sentisse intimidado, a princípio. “Nunca tinha tocado com ninguém tão bom!” Withers era baterista profissional desde os 17 anos, tocara nos Primitives e com músicos folk respeitados. Possuía também grande experiência de estúdio e fora até engenheiro de som e baterista residente nos Rockfield Studios em South Wales.

Mark, David, John e Pick começaram a ensaiar horas a fio num pequeno quarto com teto falso e tapetes a isolarem o som. 20 minutos depois de começarem, o fumo do tabaco fazia com que não se vissem uns aos outros. “Era um antro horrível e fedorento. Só me lembro de tocar, sem parar, era tudo muito básico, mas, de repente, percebemos que tínhamos um certo estilo”, recorda Illsley.

Uma identidade musical ganhava forma.

MÃOS FRIAS, LÁBIOS QUENTES

De maneira camuflada, as canções que surgiram no primeiro álbum já denotavam uma espécie de visão dupla. Havia as observações de Mark e também temas sobre amor perdido, amarguras ou namoradas do passado. O guitarrista tinha quase 30 anos, já se divorciara, e os amigos não o recordam como uma pessoa feliz, na época. De pequenas coisas, nascem grandes, diz o adágio, e as coisas iriam mudar insólita e repentinamente.

Mark e David em 1977.

Mark e David em 1977.

Estávamos na Era do punk, época revolucionária, sim, mas que colocava em segundo plano grupos como os Squeeze, e músicos dedicados que tinham passado anos a praticar. Qualquer banda de garagem podia alcançar o estrelato, e os Sex Pistols dominavam o movimento. Foi neste contexto que os Dire Straits tocaram ao vivo pela primeira vez, num festival de música punk ao ar livre, em julho de 1977, em Deptford.

Ainda indecisos quanto ao nome, usaram o da anterior banda de Mark, Café Racers. A meia hora de atuação consistiu em temas como «Sweet Nothin’s» de Brenda Lee, temas de Ry Cooder, bem como «Sultans of Swing», «In the Gallery», «Southbound Again» e «Down to the Waterline», um tema baseado simplesmente na felicidade que sentiu em regressar a casa com a sua namorada, caminhando pela margem do Rio Tyne, em Newcastle. Mark chegou mesmo a pintar um quadro do rio, que os pais puseram na parede de casa.

Mark Knopfler live 1977No segundo concerto, fizeram a primeira parte dos Squeeze no Deptford Albany, já sob a denominação Dire Straits, nome sugerido por um amigo de Pick. Os músicos eram apenas quatro entre centenas que procuravam singrar. O estilo dos Straits ia contra a corrente, linhas elegantes de guitarra, canções bem construídas, contrariando o estilo em voga.

Nalguns clubes, quem operava a mesa de mistura nem ligava quando havia queixas de que a voz não se ouvia. “O que interessa? Ele também só está para ali a murmurar…”

Um antigo amigo de Mark, Dave Pask, classifica assim os Dire Straits dessa época. “John mantinha tudo unido, David até nem era mau. Nem por sombras, chegava perto de Mark, e Mark arranjou outros melhores, mas ele não era mau. Foi ele que inventou o ritmo do grupo. Na mistura, punham o trabalho dele muito baixo. Tive pena de Dave, por ele ter de tocar ritmo no estúdio. Ao vivo, o seu som tornava-se na força motriz, mas, em estúdio, ninguém toca guitarra ritmo como Mark. Ele tem uma sensibilidade incomparável na guitarra, talvez a melhor do Planeta. E deve ter sido horrível para Dave, que tocassem os dois.”

Dave Pask afirma também que o grupo era bom no passa-palavra. “Diz ao teu amigo para trazer o amigo dele, essas coisas. E achei piada porque integravam a cena semi-radical de Deptford, e Mark não era nada radical, era até bastante conservador.”

A MAQUETE

Straits first gig

O primeiro concerto dos Straits.

Segundo Pask, “eles realmente não sabiam se se safavam com um ‘murmurador’ e sem vocais de suporte. E produziram uma demo fantástica que, em termos de feeling genuíno de pop e rock, nunca superaram. Não sei como o fizeram. Foi elaborada num período tão curto e soa como se fosse o trabalho de uma vida”.

Os Pathway Studios, situados em Islington, a norte de Londres, eram do tamanho de um armário, nesta época. O kit da bateria era pequeno e só lá cabiam mais dois músicos de pé. A sala de controlo possuía uma mesa de mistura com oito pistas e fora construída pelo engenheiro Bazza Farmer em 1974. Parecia uma cabine telefónica com um banco.

Um dia, Farmer recebeu um telefonema de Pick Withers, com quem já trabalhara. “Podes fazer uma maquete para uns amigos meus?” “Infelizmente, eu não podia, pois estava exausto”, diz o engenheiro. “Sugeri-lhe o outro colega que lá trabalhava. E assim perdi a sessão de «Sultans of Swing». Uma infelicidade, mas é assim a vida!”

Contudo, em Pathway, conseguia-se obter o melhor som imaginável por £10 à hora. Muitas bandas londrinas gravaram lá, como por exemplo os The Police que lá registaram o seu primeiro single, «Fall Out», em fevereiro de 1977. Elvis Costello e Sting passaram por Pathway. Lado A e B custavam £150. O estúdio funcionava especialmente bem no caso de bandas que tocassem com organização, potenciando-lhes o som.

Mark Knopfler Story 3

Era um espaço ocasionalmente publicitado no Melody Maker, entre dúzias, mas o que funcionava era o passa-palavra entre os músicos, que diziam maravilhas de Pathway. Até os próprios A&R (departamento de Artistas e Reportório) das editoras faziam saber que, se um grupo não soasse bem lá, não soava bem em lado nenhum. Um executivo de uma discográfica disse mesmo que as demos gravadas lá soavam tão bem como gravações feitas no Olympic Studios, dotado de 24 pistas, onde gravavam os Rolling Stones ou Eric Clapton.

Em Pathway, os Dire Straits gravaram cinco canções: «Water of Love», «Sultans of Swing», «Wild West End» e «Down to the Waterline», além de uma canção de David Knopfler, «Sacred Loving», em dois dias, pagando £120. Foi a gravação que lhes mudou as vidas. E também convenceram o engenheiro de som, Chas Herington, a abandonar o estúdio e trabalhar para o grupo.

LONDRES OUVE «SULTANS»

Numa sequência de acontecimentos que parece quase mágica, recapitulada 35 anos depois, entra agora na história um respeitado DJ, Charlie Gillett, que tinha um programa radiofónico na BBC chamado Honky Tonk. Durante sete anos, todos os domingos, passava música que não obtinha grande exposição como R&B, cajun, country, gospel, além de entrevistar convidados como Muddy Waters ou B. B. King.

Mark Knopfler Dire Straits storyEntre os músicos, o programa era imperdível, pois copiavam frases musicais, seguindo a velha fórmula: Copia algo que não é um êxito mas devia ser. Gillett não falava muito mas tocava imensos discos, por vezes, passava maquetes de bandas que não tinham contratos com editoras. A que provocou mais impacto foi a dos Dire Straits. Quando John Illsley abriu a sua malfadada loja de discos com a namorada, telefonara a Charlie Gillett para que o aconselhasse. Depois de gravada a demo em Pathway, Illsley lembrou-se de Gillett e deixou-lhe uma cópia para saber a sua opinião.

Em 1979, Gillett recordou o momento em que «Sultans of Swing» se ouviu pela primeira vez na rádio: “Era uma canção especial, que parecia cada vez melhor a cada audição, com as frases de guitarra e a narrativa a desenvolver-se. Sem prever as repercussões, encaixei-a na lista do show de 31 de julho de 1977, depois de «Good Enough» de Bonnie Raitt e antes de Ry Cooder e Squeeze. Pelos vistos, metade dos A&R de Londres estavam a ouvir. E correram para o telefone, perguntando-me que grupo era aquele. ‘Aquele que soava como um grupo americano’, diziam.”

“Arnold, da Virgin, estava a tomar banho. Chris, da Chrysalis ia a conduzir, rumo a um jogo de críquete e perdeu a sintonia quando eu disse o nome da banda. Nigel, da Ensign, também ia a conduzir, e Johnny, da Phonogram, estava no chuveiro. Os rapazes da banda nem sequer ouviram, por estarem a ajudar um amigo a mudar de casa. Por isso, passei o tema na semana seguinte, além das outras faixas da maquete. Lembro-me da sensação de responsabilidade quando eles vieram ao programa e me disseram que tinham desistido das suas anteriores carreiras para se dedicarem à música. Pareceu-me um grande risco. Especialmente com um nome como Dire Straits.”

Charlie Gillett sabia que muitas pessoas no negócio musical o ouviam e o respeitavam. Foi uma oportunidade única. Mark, David, Pick e John ficar-lhe-iam eternamente agradecidos. Nas breves notas da capa do primeiro álbum, a dedicatória é explícita: “Para Charlie Gillett”.

Subitamente, os concertos do grupo começaram a ficar mais e mais cheios. Os Straits tocavam “bastantes covers de J. J. Cale, tinham um ar desleixado em palco e cometiam muitos erros”, na opinião de Dave Pask. Mas os A&R não conseguiam entrar nos concertos, o que lhes despertou o interesse.

O CONTRATO

Astutamente, o grupo consultou um advogado, Robert Allan, (que também é referido na capa do álbum) e foi ele que negociou com a Phonogram a assinatura do contrato. John Stainze, A&R da editora, convocou um agente, Ed Bicknell, para os ver num clube londrino. Bicknell adorou o que ouviu e, no dia seguinte, propôs-lhes que atuassem nas primeiras partes da digressão seguinte dos Talking Heads.

O A&R John Stainze manteve o contacto com Mark Knopfler ao longo dos anos e recorda-se daquele período: “Tenho boas memórias dos tempos em que eles viviam todos naquele apartamento em Deptford. Passávamos a noite acordados, a falar do negócio da música, como funcionavam as companhias, etc. Passei muito tempo com eles, tentando esclarecê-los e respondendo às suas perguntas.”

Stainze era fã das bandas punk, mas achava-as efémeras. Pelo contrário, considerava que os Straits, com o orçamento e a oportunidade certas, podiam fazer os discos que quisessem. Um fator de que poucas pessoas se recordam é da idade dos músicos. Tinham todos 20 e muitos, eram mais inteligentes do que a maioria das bandas e conseguiram evitar as armadilhas óbvias, como gastar o dinheiro em droga, andar pelos escritórios da discográfica a tentar engatar secretárias quando deviam estar a ensaiar, irem para o pub falar das três novas canções quando só tinham escrito um refrão, e caírem na maior ilusão de todas: Acharem que um contrato assinado é garantia de sucesso. O trabalho ainda mal começara, e Mark, David, John e Pick bem o sabiam.

Dire Straits pub

Por vezes, o grupo ia para o pub e ficava lá mais tempo do que deveria, mas nunca caiu nas armadilhas do sexo, drogas e rock and roll.

Stainze apercebeu-se da maturidade dos Straits, embora o quarteto desconfiasse da editora. E Stainze também não estranhou o poderio de Mark na banda: “É óbvio que o compositor acaba por liderar mais. E também acho que é um erro, uma banda ser demasiado democrática, quando alguém tem, evidentemente, uma visão daquelas. Trabalhei com bandas em que há um tipo com essa visão, mas que recusa ser ditador. Alguém tem de guiar um grupo.”

No começo, os mais enérgicos eram Mark e John Illsley. Os novatos queriam saber a mecânica da distribuição dos discos, da indústria, da promoção. “Eles queriam aprender. Não se contentaram em entregar a fita e dizer, ‘tomem lá o disco, agora é convosco’. Toda a gente na editora gostou da postura deles”, conclui John Stainze.

DESDÉM EM INGLATERRA, FUROR NOS EUA

Seguiu-se a digressão dos Talking Heads, entre 20 de janeiro e 12 de fevereiro de 1978. Foi um passo importante para os Straits e, desde logo, Mark Knopfler começou a mostrar sinais de uma personalidade autoritária. O que mais o irritava eram os penduras ou desconhecidos no backstage. No palco, Mark falava de modo lacónico com o público. Vestido de negro e confiante, tal como o resto do grupo, mantinha-se quase imóvel durante os concertos.

As críticas focavam-se mais nos Talking Heads, e as poucas linhas dedicadas aos Straits nem sempre eram elogiosas. “Parece que ouviram demasiado J. J. Cale”, escreveu Penny Valentine na Melody Maker. Já a Sounds dizia que os Straits valiam, sozinhos, o preço do bilhete.

No final de fevereiro, os quatro foram para o estúdio, e Stainze escolheu Muff Winwood (irmão de Steve Winwood) para produzir o trabalho. “Nesse altura, eles não precisavam realmente de um produtor, apenas de alguém que os gravasse”, afirma Stainze. E Winwood fez isso mesmo. Não recorreu a cordas ou metais nem usou grandes truques.

Depois, veio a promoção: “Dire Straits – A última palavra em primeiros álbuns”, dizia um dos anúncios. Outro era uma private joke: “Onde estavas, a primeira vez que ouviste Dire Straits?” Surgiam cinco rostos e nenhum deles era de um dos músicos… eram executivos, Charlie Gillett e Muff Winwood, dizendo coisas como “estava a fazer jogging” ou “ouvi-os e os telefones começaram a tocar”…

Dire Straits 1st album

A figura indistinta de uma mulher na capa do álbum.

A 23 de Junho de 1978, era lançado Dire Straits, antecedido pelo single «Sultans of Swing»/«Eastbound Train», uma semana antes. Não gerou grande entusiasmo na Grã-Bretanha. Nem o próprio Muff Winwood achou que fosse longe, não tratando sequer de assegurar os seus royalties, como produtor, no estrangeiro. Quando o álbum foi lançado nos Estados Unidos e se tornou o disco de estreia que mais vendeu desde os Beatles, o dinheiro foi enviado para o Reino Unido, e Muff, que não tinha o esquema financeiro organizado, perdeu a maior parte do dinheiro para o fisco… mas, de facto, ninguém contava com o sucesso estrondoso na América.

Em Inglaterra, a receção crítica a Dire Straits não foi consensual. Os jornalistas referiam a “monotonia dos vocais de Knopfler”, criticavam o “ritmo enfadonho, nem rápido nem lento”, diziam que era a única banda do momento que não pertencia à new wave, que os músicos tocavam de modo indiferente, apesar da qualidade pontual das composições de Knopfler. “Os músicos de apoio estão afundados na mistura. Por vezes, a bateria parece humanoide, o baixo, pouco imaginativo, a guitarra ritmo, inexistente”, criticou o New Musical Express, que também apontou “desinteresse” na produção de Muff Winwood.

Dire Straits 1978 7

Era quase inevitável que, numa tabela de vendas onde reinavam os Abba, os Fleetwood Mac, o punk e a new wave, os Dire Straits parecessem uma anomalia. Mas a Sounds parecia estar do seu lado e deu-lhes bastante cobertura. A 8 de julho, duas páginas falavam deles. Mark Knopfler reagiu assim às críticas: “Não têm muito interesse. Até prefiro ler más críticas. Se nos fazem boas críticas na imprensa, podem montar-nos uma armadilha.”

Paul Chautaqua descreveu deste modo a entrevista:

“Falar com Mark é algo desconcertante, pois ele deixa grandes lacunas na conversa ou começa a rir-se a meio de uma frase, mas compreendemos por que o faz, ele preocupa-se realmente, de um modo sereno e poderoso, com o que faz. Se o tentarmos distrair disso, somos rejeitados. Ele é muito gentil, mas percebemos a mensagem.”

Mark Knopfler 1978

Entrevistas com respostas ambíguas por parte de um ex-jornalista, que sabia muito bem o que não dizer.

Paul: “Sempre quiseste ser um artista rock?”
Mark: “Acho que sim [Risos.]… Artista rock, que ideia…

O álbum e o single são então lançados na Holanda e na Bélgica, e Ed Bicknell começa a receber telexes motivadores. Vendeu três mil, seis mil… A divisão holandesa da discográfica queria o grupo lá imediatamente. Nos EUA, duas raparigas A&R, Karen Burgh e Roberta Peterson, da Warner Brothers, adoraram o álbum e assinaram o contrato de distribuição. Mais um passo decisivo.

A Inglaterra virara-lhes as costas, mas a América e a Europa apreciaram o som inovador de Knopfler, que, apesar de não ser um sex-symbol, era capaz de cantar umas frases e intercalá-las com frases de guitarra originais. As tabelas eram dominadas pela disco; Saturday Night Fever liderava. A complexidade e tamanho da indústria discográfica americana eram assustadores. Mas, para começar, os anúncios eram diferentes dos que haviam surgido em Inglaterra; apostou-se na maturidade do álbum e não em promoção algo pateta.

Mark compenetrado na guitarra slide de «Water of Love».

Mark compenetrado na guitarra slide de «Water of Love».

A poderosa e influente Rolling Stone criticou o disco, com Ken Tucker a assinalar: “Enquanto compositor, Knopfler escreve narrativas concisas sobre problemas mundanos; sejam eles acerca de mulheres, de dinheiro, de conquistar um lugar no mundo. Tão depressa é inteligente como cai na banalidade. A uma boa frase, segue-se uma tonta. Mas, se viver sozinho é o assunto de Dire Straits, até soa a uma boa vida.”

Tucker achou que o grande tema era o ataque à avant-garde de «In the Gallery». Chamou folk/rock a «Sultans of Swing» e considerou «Wild West End» e «Lions», refrescantes e admiráveis. O álbum entrou para o número 70 do top 100 da Billboard. Na semana seguinte, subiu como um foguete para o 19. Pouco depois, assumia o sexto lugar.

Mark e David em Nova Iorque.

Mark e David em Nova Iorque.

Mark Knopfler não se deixou iludir pelo sucesso repentino e agiu com inteligência em duas ocasiões. Em 1978, contratou o experiente diretor de digressões Paul Cummins. E decidiu fazer uma digressão em clubes nos EUA no início de 1979. Assim, em todas as cidades, eram o “espetáculo a ver” e todos os bilhetes esgotaram de antemão. 51 concertos em 38 dias. Em Nova Iorque, podiam ter atuado no Madison Square Garden, mas optaram por atuar duas noites no famoso clube Bottom Line.

Estas jogadas de xadrez de Mark Knopfler criaram uma antecipação num vasto setor do público, e críticas, agora sim, muito boas. Em Los Angeles, outros músicos vieram assistir à banda de que tanto se falava mas poucos tinham visto. Carly Simon, Rod Stewart, Keith Richards, Bette Midler e Linda Ronstadt encontravam-se entre o público, bem como outras celebridades que os foram cumprimentar no backstage, dando os parabéns.… entre elas, um dos grandes ídolos de Mark, Bob Dylan.

Todos conheciam a admiração enorme de Knopfler pelo músico americano, mas quem estava presente afirma que não houve grande teatralidade no momento. Ainda assim, não era algo que sucedesse todos os dias. Bob apertou-lhe a mão e disse, “adoro realmente o vosso trabalho”.

A “bênção” de Dylan assemelhou-se a uma aprovação oficial. Nascera um fenómeno.

David Furtado

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9 comentários a “Dire Straits, 35 anos depois: A formação do grupo e o primeiro álbum

  1. Prezado David Furtado,
    Também sou grande fã do Dire Straits e gostei muito do seu texto. Muito legal poder saber minúcias sobre a formação dessa grande banda que tanto amo desde a adolescência. Você sabe se é correto afirmar que Mark, John, David e Pick ensaiavam no mesmo prédio em Deptford onde moravam? Estou escrevendo uma crônica sobre Londres e a formação do Dire Straits e gostaria de esclarecer esse ponto. Obrigada pela atenção, Renata.

  2. Prezado David,
    Obrigada pela resposta. Acabo de publicar no meu blog uma crônica sobre Londres na qual menciono os primórdios do Dire Straits. O endereço do meu blog é http://www.literaturaeflamengo.blogspot.com.br
    Um abraço, Renata.

  3. Obrigada, David. Fico feliz em saber que você gostou. Um abraço, Renata.

  4. Adoro essas historias!!!Como disse anteriormente, conheci o DIre Straits em 1979 quando tinha 6 anos de idade e depois vieram Alchemy e o tao aclamado “Brothers in Arms”, que me fez fa pra valer!Apesar de estar na contra mao na epoca e ser criticado por isso, me orgulho de gostar de uma banda que faz um som peculiar e tem um dos melhores guitarristas de todos os tempos!Ouço ate hoje em meu carro, em casa e nunca me canço.Adorei os comentarios!
    Abraço!

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