Para terminar esta série de quatro artigos sobre o realizador, e apesar de vários filmes merecerem uma menção especial, centro-me em dois: Goodfellas e Casino. 10 anos depois de Raging Bull, Scorsese regressou com outra obra-prima e alguns dos trabalhos mais ambiciosos de toda a sua carreira. O cineasta surpreendeu o público com duas análises geniais ao mundo do crime, quando já se pensava que a saga O Padrinho seria a última palavra no género.
(Continuação do artigo anterior.)
Desde que me lembro, sempre quis ser um gangster. Para mim, ser gangster era melhor que ser presidente dos Estados Unidos.
Narração de ‘Henry Hill’ em Goodfellas (1990)
Na vida real, Henry Hill não era um herói. Desde a infância que estava envolvido com a família mafiosa de Brooklyn chefiada por Paul Vario. Durante 30 anos, Hill foi um dos tentáculos do criminoso. Quando Nicholas Pileggi, autor do livro Goodfellas, conheceu Henry Hill, em 1980, este encontrava-se na Prisão do Condado de Nassau, enfrentando uma pena perpétua devido ao seu envolvimento no roubo da Lufthansa, o maior assalto da história dos EUA, rendendo seis milhões de dólares.
Segundo Pileggi, “Hill era um indivíduo de inteligência e literacia mediana, que, por acaso, também era um criminoso inveterado. Sabia literalmente onde os cadáveres estavam enterrados”. Este conceito interessou o autor, que estava “farto das deambulações megalómanas de marginais iletrados, fazendo-se passar por Padrinhos benevolentes”.
Scorsese foi atraído pelo mesmo contraste, a diferença entre a história de Hill e a trilogia The Godfather. Sem se deixar influenciar pelo teor operático das obras de Sergio Leone e Francis Ford Coppola, o realizador empenhou-se numa trilogia sobre o mundo do crime, que integraria mais dois filmes, Casino e Gangs of New York. Em Goodfellas, dividiu a história por três personagens centrais.

Liotta, De Niro e Joe Pesci.
Robert De Niro, apesar de resignado com o seu papel secundário, sugeriu ao realizador que abordasse Ray Liotta, depois de ter visto o ator em Something Wild (1986) filme de Jonathan Demme, em que Liotta interpreta o violento ex-marido de Melanie Griffith. De acordo com Scorsese, durante uma conversa com apenas cinco frases, Robert de Niro aceitou ser um dos “mosqueteiros” mais velhos, em segundo plano relativamente ao “D’Artagnan” da história: Ray Liotta (Henry Hill).
O personagem interpretado por De Niro (James Conway) baseia-se em Jimmy ‘the Gent’ Burke, que educou Hill e se tornou no seu mentor. O outro parceiro era mais sinistro e inspira-se em Tommy DeSimone, um psicopata que até matou amigos próximos por traições corriqueiras. O gangster tinha 1,80m de altura, mas Scorsese sempre imaginou Joe Pesci como ‘Tommy’.
TALENTO PARA O ‘PAPEL’

Lorraine Bracco em Casino.
Para interpretar ‘Karen’, Scorsese escolheu Lorraine Bracco, que tinha já um longo historial de conseguir papéis em filmes de realizadores com quem o marido trabalhara. Como era casada com Harvey Keitel, conseguiu ultrapassar outras atrizes aspirantes, o que sucedeu em Someone to Watch Over Me, de Ridley Scott, e culminou no papel em Goodfellas. A atriz aproveitou-se descaradamente da amizade entre Keitel e Scorsese para o conseguir, sendo nomeada para um Óscar. Mais tarde, seria a “psiquiatra” de Os Sopranos. (O crítico Roger Ebert sugere que esta série televisiva “deve bastante à narração de Goodfellas, especialmente à de ‘Karen’”.)
Sublinhe-se que, durante os anos 80, Keitel viu a sua carreira estagnada, enquanto a mulher (que conhecera em 1982, em Paris) ia subindo à custa dele. A partir do momento em que apoiou Reservoir Dogs de Tarantino, o ator alcançaria outro patamar, mas cinco anos após Goodfellas, ainda aceitava as “sobras” de Robert De Niro, ator que originalmente iria protagonizar Clockers, sob a direção de Scorsese. Quando ambos decidiram dedicar-se a Casino, o realizador Spike Lee ocupou-se de Clockers, com Harvey no papel principal.
Como se não bastasse este tratamento com contornos pouco dignificantes, no filme depois de Goodfellas, A Talent for the Game, Lorraine Bracco envolveu-se com o ator Edward James Olmos e traiu Keitel. Em 1993, numa secção tabloide do New York Evening News, Bracco acusou o ex-marido e De Niro de dizerem mal dela aos produtores. Quem pensaria duas vezes em oferecer-lhe papéis, se Robert De Niro comentasse, “ouvi dizer que ela só dá problemas”? Verdade ou não, o certo é que Lorraine Bracco teria pela frente 22 anos a interpretar papéis menores (excetuando Os Sopranos), e que Goodfellas foi o seu apogeu.

Liotta, De Niro, Paul Sorvino, Scorsese e Joe Pesci.
Apesar destas peripécias, o casting do filme é excelente, bem com o equilíbrio da narrativa, com Scorsese a filmar de maneiras diferentes, visto que a obra decorre ao longo de vários anos. Como já acontecera em colaborações anteriores, De Niro levou o papel ainda mais longe. Numa das cenas de Goodfellas, ‘Conway’ recebe a notícia de que ‘Tommy’ foi morto. Segundo o relato de Pileggi, ‘Conway’ ficou tão perturbado que bateu com o auscultador, a ponto de abanar a cabina telefónica. De Niro despedaça o telefone, espatifa e derruba a cabina. Mas é Pesci quem se destaca com a sua genial representação do ameaçador ‘Tommy DeVito’, pela qual recebeu o Óscar de Melhor Ator Secundário.
Henry Hill contou a Scorsese que a Máfia sabia muito bem como era retratada no cinema, revelando que, anos antes, Tony Vario, que nunca saia de casa, foi “arrastado” para o cinema pelos amigos, para assistir a Mean Streets.
Além de o classificar de obra-prima, Roger Ebert afirma que Goodfellas foi “o melhor filme dos anos 90”. Em sua opinião, “o que Scorsese faz, acima de tudo, é partilhar connosco o seu entusiasmo pelo material. Podemos sentir o quanto roubar é divertido para estes personagens”. A obra foi um sucesso artístico e comercial mas, nesse ano, o filme agraciado pela Academia foi Dances with Wolves.
“Fizemo-lo com 25 milhões de dólares”, comenta Scorsese “e, quando eu disse isto ao Spielberg, ele respondeu: ‘Continuas a trabalhar com baixos orçamentos, hã?’”
A crítica Pauline Kael queixou-se que Goodfellas parecia Scarface (1932) só que sem o ‘Scarface’. “E porque não?” defende-se o realizador. “É obrigatório termos o Paul Muni a correr de um lado para o outro?”
O acordo que Martin Scorsese assinou com a Universal permitiu ao realizador o tão ansiado “espaço para respirar”, algo que raramente tivera. O cineasta aproveitou, dedicando-se a alguns dos filmes mais ambiciosos da sua carreira, como o brilhante The Age of Innocence (1993), a adaptação de um romance de Edith Wharton. Sem recorrer tanto aos atores que tinham ajudado a estabelecer a sua reputação, como Harvey Keitel, Scorsese atribuiu papéis a Michelle Pfeiffer, Daniel Day-Lewis, Nick Nolte, Jessica Lange ou Juliette Lewis, com excelentes resultados. Até o remake de Cape Fear (1991) foi um sucesso em que o cineasta contou com os dois protagonistas do filme original, Robert Mitchum e Gregory Peck, aqui em papéis secundários.
A ASCENSÃO E QUEDA DE ÍCARO
À noite, era impossível avistar-se o deserto que rodeia Las Vegas. Mas é nele que muitos dos problemas da cidade se resolvem. Há muitos buracos no deserto… e é neles que se enterram muitos problemas. Mas temos de o fazer em condições. Quero dizer, temos de ter o buraco já cavado antes de aparecermos com um pacote na mala. Caso contrário, falamos de meia hora a 45 minutos a cavar. E sabe-se lá quem pode aparecer durante esse tempo. Quando damos por isso, temos de cavar mais alguns buracos. Podemos passar lá a merda da noite inteira.
Narração de ‘Nicky Santoro’ em Casino (1995).

Depois de The Age of Innocence, Scorsese ponderava vários projetos quando Nicholas Pileggi o abordou com a ideia que se tornaria em Casino. Tudo começara em 1980, com um artigo no Las Vegas Sun sobre uma ocorrência em que a polícia foi chamada devido a um litígio doméstico no jardim de uma moradia. Frank ‘Lefty’ Rosenthal, gestor do casino Stardust, discutia com a esposa, Geri McGee, ex-bailarina topless. Ao longo dos 12 anos anteriores, Rosenthal ascendera de forma meteórica, de obscuro jogador de Kansas City a gerente de um dos maiores casinos americanos. Fizera-o sem a licença das autoridades de jogo do Estado do Nevada e com o auxílio do ladrão e assassino Tony Spilotro, um velho amigo de Chicago a quem recorrera, empregando-o como guarda-costas e dividindo com ele os lucros.
Spilotro era um psicopata, tendo sido acusado de 35 homicídios, mas sempre ilibado, já que não havia testemunhas vivas. Spilotro saqueou Las Vegas com indiscrição, estabelecendo um reinado de terror; Rosenthal perdeu o controlo sobre ele, o FBI apercebeu-se e interveio, detendo cinco capi (capitães mafiosos) de Kansas City, que dominavam o jogo em Vegas.
Os mafiosos decidiram abandonar os negócios escuros na cidade, deixando-a entregue às grandes corporações. Todos os que podiam testemunhar contra eles foram metodicamente assassinados, incluindo Spilotro, enterrado vivo com o irmão num campo de trigo, uma execução à qual, provavelmente, o FBI fechou os olhos, já que, por esta altura, tinha todos sob escuta e conhecia o esquema por dentro. Rosenthal (que no filme se chama Sam ‘Ace’ Rothstein) sobreviveu à explosão de uma bomba que lhe colocaram ineptamente no carro. Tornou-se famoso com o filme de Scorsese e até fundou um website.
Pileggi queria escrever um livro sobre estes acontecimentos e só depois adaptá-lo ao cinema, mas Scorsese disse-lhe para inverter essa ordem. Ambos condensaram a história, tornando-a numa espécie de “sprint de 177 minutos”, “um Goodfellas com speed” como lhe chamou John Baxter, que sublinha outro facto interessante: “Todas as técnicas empregues no filme anterior são reutilizadas, só que maiores, mas brilhantes, mas ruidosas. Em vez da voz off de duas personagens, temos 12.” E acrescenta:
“Para Scorsese, ‘Rothstein’ é um Ícaro, o homem que voa demasiado perto do Sol, metáfora que surge no genérico de abertura, em que o jogador é projetado do carro e flutua em câmara lenta através de labaredas, pairando entre um passado violento e um futuro incerto.”

Nesta obra, “a história mais velha do mundo”, como a classificou Scorsese, Robert De Niro compõe um perfeito ‘Rothstein’, e Joe Pesci, no papel de ‘Nicky Santoro’ torna-se quase apoteótico enquanto psicopata. No elenco, surgem também James Woods (extraordinário como sempre) e Sharon Stone, num dos seus melhores papéis, senão o melhor, como mulher de ‘Rothstein’. A primeira escolha para desempenhar ‘Ginger’ foi Michelle Pfeiffer, mas Stone dá-nos um retrato fulgurante – da ascensão ao glamour de Las Vegas a uma vertiginosa queda no esgoto.
A VERDADE DE LAS VEGAS
Tipos como eu redimem os seus pecados em Las Vegas. É como uma lavagem de carros de moralidade. O mesmo efeito que Lourdes surte sobre os aleijados. Além de nos pôr na legalidade… há dinheiro a rodos. Afinal, o que estamos a fazer no deserto? É todo este dinheiro. É o resultado final do brilho destas luzes… das viagens pagas, dos banhos de champanhe, das suites de hotel à borla, das miúdas e das bebidas. Tudo bem pensado para vos sacar dinheiro. É essa a verdade de Las Vegas. Só nós é que ganhamos. Quem joga não tem hipóteses.
Narração de ‘Sam Rothstein’ em Casino (1995).
Martin Scorsese comenta que “Casino foi outro olhar sobre este grupo, [o de Goodfellas] ou ao estilo de vida, mas em Vegas e com o toque americano; a ideia do que Vegas e o deserto são para os soldados quando regressam da II Guerra Mundial, a ideia de que os sonhos dependem de um girar da roleta, zás, toda a tua vida muda. E, entretanto, eles estão a fazer de ti um trouxa. Estás a dar-lhes dinheiro; pões lá o dinheiro e eles ficam com ele. Todas as probabilidades estão contra ti”.
Ambos os filmes explicam exaustivamente os esquemas fraudulentos, parecendo, por vezes, autênticos documentários, algo que Scorsese achou indispensável: “Os detalhes fazem com que funcione. Tornam tudo mais pessoal. Foram todos os pormenores documentais nos filmes de Rossellini que me levaram a jogar com isso em Goodfellas e, é claro, The Age of Innocence e Casino.”
Mantendo o seu estilo identificável, Scorsese criou duas obras em que evoluiu como cineasta, sem se repetir. Em Raging Bull, utilizara a câmara lenta para sublinhar a obsessão erótica, e sucede o mesmo em Casino, no modo como ‘Ace’ vê ‘Ginger’. O cineasta recorda a cena em que Sharon Stone atira as fichas de jogo ao ar: “Frank Rosenthal, em quem o filme se baseia, contou-nos que a viu fazer isso uma noite. Foi um pandemónio. Ele apaixonou-se loucamente por ela. E foi o único erro que ele cometeu, já que ele controlava tudo.”
A cena em que ‘Ace’ conhece ‘Ginger’:
Admitindo que a década de 80 foi um mau período, o realizador revela com entusiasmo: “Acho que aprendi… aprendi sobre mim mesmo, a ser cuidadoso, a evitar encarar o meu trabalho com complacência. E é tão libertador.”
“Sinto-me tão livre quando vou para um set, tenho um script, vejo uma coisa e zás, sei o que fazer. Mas há sempre algo de permeio quando tentamos transferir esse pensamento, essa nota, esse pequeno desenho, de um papel para a lente, e depois, da lente para… meu Deus, que tipo de lente, o que havemos de fazer? Muitas vezes, até sei qual é a lente apropriada, mas o que pôr à frente dela? Alguma coisa está mal?”
“Ao percebermos que temos todas as possibilidades, tudo se abre, e temos de estar preparados para tudo. A ideia é que não podemos estar preparados para tudo, mas sim, preparados para não ficarmos chocados quando não sabemos o que fazer. Se não sabemos, tentamos encontrar a forma, com o ator, com o diretor de fotografia, e não nos martirizamos tanto. É mais assustador, mas também torna as coisas mais interessantes e mais descontraídas.”
David Furtado
Os textos anteriores desta retrospetiva:
Martin Scorsese: “Por estas ruas cruéis, um homem tem de caminhar”
Martin Scorsese e O Touro Enraivecido: “Embora soubesse lutar, prefiro recitar”

Parabéns por mais esta apreciação! Ainda me falta ver os vídeos. Todavia, posso já dizer que fechaste com chave de ouro a homenagem (pode chamar-se assim) a Martin Scorsese. Melhor e mais completo é difícil! Curioso como a Lorraine Bracco, pelo menos com esta idade, se parece com a actriz Debra Winger que contracenou com Richard Gere em “An Officer and a Gentleman”. Jjulgo que ambas engordaram muito, entretanto…
Mais um “pacote” de artigos para guardar, pois estes filmes merecem ser revistos! Continua a transmitir-nos o muito que sabes. O teu interesse pelas artes e o domínio do assunto, nomeadamente, no que diz respeito à 7ª arte, acaba por ser contagioso e levar outros a quererem saber mais e a rever e conhecer melhor filmes que já viram e a ver outros que não conhecem.
Olá. E obrigado! Agora que o referes, a Debra Winger é realmente parecida com a Lorraine Bracco… mas prefiro a Debra Winger. Embora a Lorraine Bracco tenha um excelente desempenho no “Tudo Bons Rapazes”.
Continuarei a fazer o que posso, para “contagiar” mas fãs de cinema, sem dúvida. (Estou a trabalhar a estas horas nisso mesmo.)
Os vídeos são importantes, mas, como sublinhei, o vídeo do “Goodfellas” não é para todos. Havia muito mais a dizer sobre o Martin Scorsese, mas… enough is enough, for now.
Obrigado pelos comentários e bons filmes.
Olá! Acho que a tua preferência por Debra Winger se justifica. Primeiro, porque sei que tens bom gosto. Segundo, porque o que aqui revelas da Lorraine Bracco não abona nada em favor dela! Como actriz, também prefiro Debra Winger. Gostei bastante da actuação dela em “Oficial e Cavalheiro”. Estive a ver os videos. O primeiro é realmente violento. Não admira, tratando-se da Máfia. Não percebo o que dizem, mas quem não percebe a linguagem da violência? “Nascidos para matar”, podia ser o título ou “Quem com ferros mata, com ferros morre”. Mas todos eles são, além de “goodflellas”, excelentes actores! Quanto ao video do Casino, é a Sharon Stone no seu melhor, ou seja no papel em que é exímia! Eu acho que há um padrão semelhante, em todos os filmes que vi: sedução fatal para o homem que se apaixona por ela!
Olá, MTC, agradeço o facto de dizeres que tenho bom gosto. Referia-me, contudo, ao talento das atrizes em questão. Mas, na vertente da beleza, continuo a preferir a Debra Winger, da qual me recordo em “Oficial e Cavalheiro” e muitos outros filmes. A certo ponto, desapareceu. A Sharon Stone parece destinada a ser a femme fatale por razões óbvias, mas considero-a uma atriz talentosa, e “Casino” é exemplo disso. Julgo que ainda nos reserva algumas surpresas no futuro. (Quanto à violência do vídeo, deixei o alerta, já que o site não tem restrições de idade.) Obrigado.